Filosofia e clínica
O que o estoicismo acerta (e o que erra) sobre a saúde mental
A filosofia estoica voltou à moda como ferramenta de autocontrole. Onde ela conversa de verdade com a psicoterapia — e onde "aceitar o que não se controla" vira armadilha.
O estoicismo virou tendência. Livros de bolso, vídeos de produtividade, frases de Marco Aurélio em fundo de paisagem. Parte disso é simplificação, mas há ali algo real — e algo que, levado ao pé da letra, atrapalha. Vale separar.
O que o estoicismo acerta
A intuição central dos estoicos é antiga e poderosa: sofremos menos com os acontecimentos do que com os juízos que fazemos sobre eles. Entre o que acontece e a minha reação existe um espaço — a interpretação — e nesse espaço há margem de liberdade. Não é coincidência que a terapia cognitivo-comportamental, uma das abordagens com mais evidência em psicoterapia, tenha raízes declaradas no estoicismo. A ideia de examinar os próprios pensamentos, identificar distorções e não tomar cada impressão como verdade absoluta é, em boa medida, estoicismo aplicado.
A distinção estoica entre o que está e o que não está sob meu controle também é clinicamente útil. Boa parte da ansiedade nasce de tentar controlar o incontrolável — a opinião alheia, o futuro, o resultado. Reconhecer o que de fato depende de mim, e investir energia aí, alivia.
Onde ele erra — ou onde nós o usamos errado
O problema aparece quando "aceitar o que não se controla" vira "engolir o que se sente". O estoicismo popularizado às vezes escorrega para uma frieza que manda suprimir a emoção, não senti-la, ser "inabalável". Isso não é saúde mental — é, com frequência, o oposto. Emoções não são defeitos a serem eliminados; são informação. Tristeza, medo e raiva dizem algo, e a tarefa não é silenciá-los à força, mas escutá-los e dar a eles um lugar.
Há ainda um risco específico: usar a linguagem do autocontrole para se culpar. "Se eu sofro, é porque não estou pensando direito" pode virar mais uma forma de cobrança contra quem já está em sofrimento. Depressão e ansiedade não se resolvem com mais disciplina mental, e tratá-las como falha de caráter é injusto e ineficaz.
O estoicismo, então, é um bom companheiro e um mau substituto. Como atitude diante da vida — examinar os próprios juízos, distinguir o que se controla — ele conversa bem com o cuidado. Como ordem para não sentir, ele se volta contra a pessoa. A diferença entre uma coisa e outra é exatamente o que se trabalha numa boa psicoterapia.
Henrique Hamilko é médico, em residência de Psiquiatria no Instituto Municipal Philippe Pinel (Rio de Janeiro). Atende em Botafogo, na Zona Sul do Rio, e online.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui avaliação médica individual. Em situações de crise, procure a emergência mais próxima ou ligue para o CVV (188).
Henrique Hamilko