Avaliação clínica
Que exames um psiquiatra pede na avaliação de depressão?
Depressão não se diagnostica com exame de sangue — mas alguns exames ajudam a descartar o que imita uma depressão. Por que peço tireoide, vitaminas e outros marcadores na primeira consulta.
Uma dúvida comum na primeira consulta é: "tem exame que diz se eu estou com depressão?". A resposta honesta é não. O diagnóstico de depressão é clínico — feito pela história, pela forma como os sintomas aparecem e se organizam na sua vida, pela escuta. Nenhum exame de sangue ou de imagem confirma uma depressão.
Então por que eu costumo pedir exames? Por um motivo diferente, e importante: existem condições do corpo que produzem sintomas idênticos aos de uma depressão. Cansaço que não passa, lentidão, desânimo, dificuldade de concentração, alteração de sono e de apetite — tudo isso pode vir de um problema clínico, não psiquiátrico. Tratar como depressão algo que é, na verdade, outra coisa, é perder tempo e, às vezes, deixar passar um diagnóstico que tem solução simples.
O que costumo investigar
Não existe uma bateria fixa e igual para todo mundo — o que peço depende da sua história, da sua idade, dos seus sintomas e do que já foi investigado antes. Mas alguns marcadores aparecem com frequência:
- Função da tireoide (TSH e, quando indicado, T4 livre). O hipotireoidismo é o grande imitador da depressão: lentifica o corpo e o humor, e é comum, sobretudo em mulheres.
- Vitamina B12 e vitamina D. Deficiências dessas vitaminas se associam a sintomas de humor e de energia, e são facilmente corrigíveis.
- Hemograma. Uma anemia pode explicar boa parte de um quadro de cansaço e falta de disposição.
- Glicemia e outros marcadores metabólicos, conforme o caso, porque condições metabólicas conversam com o humor e com a escolha do tratamento.
Dependendo da história, outros exames entram — função renal e hepática antes de iniciar certas medicações, por exemplo, ou investigações mais específicas se algo na avaliação aponta para isso.
O exame não substitui a conversa
Vale o contraponto: pedir muitos exames sem critério também é um problema. Exame em excesso gera achados irrelevantes, ansiedade e custo, e pode dar a falsa impressão de que a resposta para o sofrimento está numa folha de resultados. Não está. Os exames servem para descartar o que precisa ser descartado e para preparar um tratamento seguro — não para fazer o diagnóstico no seu lugar.
Por isso, se você já fez exames recentes, vale trazê-los para a consulta: muitas vezes não há necessidade de repetir. E se você nunca investigou, a primeira consulta é o momento de decidir, juntos, o que faz sentido olhar — sem exagero e sem deixar passar o que importa.
Henrique Hamilko é médico, em residência de Psiquiatria no Instituto Municipal Philippe Pinel (Rio de Janeiro). Atende em Botafogo, na Zona Sul do Rio, e online.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui avaliação médica individual. Em situações de crise, procure a emergência mais próxima ou ligue para o CVV (188).
Henrique Hamilko