Tratamento
Antidepressivo e libido: o efeito de que ninguém fala
A queda de desejo sexual é um dos motivos mais comuns para abandonar o tratamento — e um dos menos conversados. O que acontece, por que acontece e o que dá para fazer.
Entre os efeitos colaterais dos antidepressivos, há um que raramente aparece na conversa e que, no entanto, é um dos que mais levam as pessoas a largar o tratamento por conta própria: a mudança na vida sexual. Queda do desejo, dificuldade de excitação, demora ou ausência de orgasmo. É frequente, é incômodo, e o silêncio em torno do assunto só piora as coisas.
Acho que cabe falar disso abertamente — inclusive porque o efeito tem explicação, tem variação entre medicações e, na maioria das vezes, tem manejo.
Por que acontece
Boa parte dos antidepressivos mais usados age aumentando a serotonina disponível no cérebro. Essa mesma ação que ajuda no humor e na ansiedade tende, em muitas pessoas, a reduzir a resposta sexual. Não é "falta de atração" nem algo psicológico: é um efeito do mecanismo do remédio. Importante separar duas coisas, aliás — a própria depressão já reduz a libido, então às vezes o que melhora com o tratamento e o que o tratamento atrapalha se misturam, e desembaraçar isso é parte do trabalho.
O que dá para fazer
Bastante coisa, e quase nunca a resposta é "aguente calado":
- Esperar com critério. Alguns efeitos cedem nas primeiras semanas, à medida que o corpo se ajusta. Vale distinguir o que é transitório do que persiste.
- Trocar a medicação. Nem todo antidepressivo tem o mesmo perfil. Existem opções com impacto sexual menor, e mudar para uma delas é uma estratégia legítima quando o efeito incomoda.
- Ajustar a dose ou, em casos selecionados, associar outra medicação que contrabalance o efeito — sempre com avaliação individual.
O ponto central é este: o tratamento existe para você viver melhor, e vida sexual faz parte disso. Um efeito colateral que reduz sua qualidade de vida não é o preço inevitável de tratar a depressão — é algo a ser conversado e ajustado. A pior saída é abandonar o remédio em silêncio; a melhor é trazer o assunto, sem constrangimento, para que o plano seja reformulado com você.
Henrique Hamilko é médico, em residência de Psiquiatria no Instituto Municipal Philippe Pinel (Rio de Janeiro). Atende em Botafogo, na Zona Sul do Rio, e online.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui avaliação médica individual. Em situações de crise, procure a emergência mais próxima ou ligue para o CVV (188).
Henrique Hamilko