Tratamento · TDAH
Você renova minha receita de Venvanse ou Ritalina?
Uma dúvida comum de quem já usa estimulante e busca um novo psiquiatra. A resposta curta é sim — mas com uma conversa antes, e por um bom motivo.
É uma das primeiras perguntas que recebo de quem já faz tratamento e está trocando de médico: "doutor, você renova minha receita de Venvanse?" (ou de Ritalina, Concerta, Juneve — os estimulantes usados no TDAH). A pergunta é legítima e a preocupação por trás dela também: ninguém quer ficar sem uma medicação que vinha ajudando, nem transformar a troca de psiquiatra num recomeço do zero.
A resposta curta é sim, eu renovo. Mas vale explicar o "como", porque é aí que está o cuidado.
Renovar sim — mas entendendo o tratamento com você
Num primeiro momento, se você já usa a medicação, faz sentido dar continuidade para não interromper um tratamento que vem funcionando. O que eu não faço — e acho que nenhum médico deveria fazer — é renovar no automático, sem entender o que estou renovando. Então, na primeira consulta, a gente conversa sobre o essencial:
- Como foi feito o diagnóstico e como os sintomas de atenção aparecem no seu caso concreto.
- Qual medicação, dose e há quanto tempo você usa, o que melhorou e se há efeitos colaterais.
- Como está o resto — sono, humor, pressão, coração, uso de outras substâncias —, porque isso influencia a segurança do estimulante.
Com esse quadro em mãos, dou continuidade à prescrição e, a partir daí, reavaliamos conforme a necessidade: manter, ajustar a dose, ou repensar a estratégia se algo não estiver bem. A ideia é que você siga com o tratamento sem interrupção e, ao mesmo tempo, com alguém acompanhando de perto — não apenas assinando a receita.
Por que a conversa importa (ainda mais com estimulantes)
Estimulantes são medicações controladas, e com boa razão: são eficazes, mas exigem indicação correta e acompanhamento. Renovar sem avaliar é ruim por dois motivos. Primeiro, de segurança — a dose pode precisar de ajuste, podem ter surgido condições novas, e efeitos como alterações de sono, apetite, pressão e humor merecem ser monitorados. Segundo, de diagnóstico, porque uma dificuldade de atenção pode ter várias origens, e ansiedade, depressão e privação de sono produzem sintomas parecidos. Quando o diagnóstico é sólido, seguimos com tranquilidade; quando há dúvida, é melhor olhar com calma do que perpetuar algo mal indicado.
Há ainda situações que pedem mais atenção — por exemplo, quando o TDAH aparece junto de transtorno bipolar. Aí a ordem das coisas importa, e o estimulante entra num plano pensado como um todo, não isoladamente.
O que trazer para agilizar
Se você já vai à primeira consulta com esse objetivo, vale levar o que tiver: receitas antigas, laudos, avaliação neuropsicológica e exames recentes. Isso encurta o caminho e me ajuda a entender seu histórico sem fazer você repetir tudo do zero.
Em resumo: a receita não fica refém da troca de médico. Você continua o tratamento — só que agora com uma avaliação que garante que ele siga seguro, bem indicado e ajustado a você.
Henrique Hamilko é médico, CRM-RJ 52-134517-6, e residente em Psiquiatria no Instituto Municipal Philippe Pinel, no Rio de Janeiro. Atende adultos em Botafogo e online.
Conteúdo atualizado em julho de 2026.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui avaliação médica individual. Em situações de crise, procure a emergência mais próxima ou ligue para o CVV (188).
Henrique Hamilko