TDAH
TDAH como uma relação diferente com o tempo
Além da desatenção, o TDAH é uma forma distinta de habitar o tempo — o agora que pesa demais, o depois que não chega. Uma leitura do transtorno para além da lista de sintomas.
A descrição de manual do TDAH é uma lista: desatenção, impulsividade, inquietude. A lista é útil, mas ela não captura como é viver assim — e, na clínica, é o como que importa. Uma forma de entender o TDAH que considero mais fiel à experiência é pensá-lo como uma relação diferente com o tempo.
O agora que ocupa tudo
Para quem tem TDAH, o presente tende a ser intenso e absoluto. O que está acontecendo agora ocupa quase todo o espaço mental; o que está distante no tempo — uma prova daqui a duas semanas, uma consequência que só chega depois — perde força, como se não fosse inteiramente real. Não é falta de inteligência nem de vontade. É que o futuro não comparece com o mesmo peso com que comparece para outras pessoas.
Isso reorganiza tudo. A procrastinação deixa de ser preguiça e passa a ser a dificuldade de tornar presente uma tarefa cuja recompensa ou cobrança está lá adiante. A impulsividade deixa de ser irresponsabilidade e passa a ser a resposta a um agora que pesa mais do que o depois. O tempo, para quem tem TDAH, muitas vezes só tem dois modos: "agora" e "não agora" — e o "não agora" some do radar.
Por que essa leitura muda o cuidado
Entender o TDAH assim tem consequência prática. Estratégias que funcionam não são as que pedem "mais força de vontade" — são as que trazem o futuro para o presente: dividir tarefas grandes em passos imediatos, tornar prazos visíveis e concretos, criar estruturas externas que substituam o senso interno de tempo que falha. O tratamento medicamentoso, quando indicado, atua exatamente aí: ajuda a sustentar a atenção e a dar ao "depois" um pouco mais de presença.
E há o reverso, que merece ser dito: essa mesma relação com o tempo tem um lado fértil. A capacidade de mergulhar inteiro no presente, o hiperfoco no que interessa, a espontaneidade — não são só déficits. O cuidado não busca apagar esse modo de ser, e sim reduzir o que ele tem de sofrimento e prejuízo, preservando o que ele tem de potência.
Por fim, um cuidado diagnóstico: nem toda dificuldade de atenção é TDAH. Ansiedade, depressão, sono ruim e sobrecarga produzem desatenção parecida. Por isso a avaliação precisa ser criteriosa e olhar a vida inteira — o TDAH acompanha a pessoa desde cedo, não aparece só num período difícil.
Henrique Hamilko é médico, em residência de Psiquiatria no Instituto Municipal Philippe Pinel (Rio de Janeiro). Atende em Botafogo, na Zona Sul do Rio, e online.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui avaliação médica individual. Em situações de crise, procure a emergência mais próxima ou ligue para o CVV (188).
Henrique Hamilko